DRAMIN – III

Pegou um punhado de areia e olhou ao redor, perdido em pensamentos. O mar estava azul e prateado, refletindo o céu nublado. Ele escalou uma pedra, uma pedra que parecia ter sido feita para escalar. Sentou, e tirou a areia grudada nos pés. Queria saber onde estava, e queria lembrar onde estava a mulher dos seus sonhos… Qual era mesmo o nome dela? ele pensou.
Conforme se mexia na pedra, ela se moldava ao seu corpo, ele dobrou uma perna, apoiou o cutovelo no joelho e falou:
-Então… qual o motivo?
Do lado dele, na pedra, um homem com um chapéu lhe disse:
-Esse é o motivo.
Ele voltou seu olhar ao homem. Era como se agora ele pudesse enxergar com nitidez. Na posição que ele estava ficava dificil dizer sua altura, mas agora podia ver que suas roupas, não eram normais. Não eram feitas de tecido, era uma camiseta preta, que parecia ser feita do mesmo material que são feitas as folhas das arvores, com uma estampa de interrogação que lhe ocupava todo o peito, em rosa, no tom de uma flor de azaléia. Sua calça é um tecido diferente, que eu nunca saberia descrever. Estava de chapéu ainda.
-Essa seria uma boa hora pra você dizer quem, ou o que, você é, não?
-É… lhe devo explicações.
Então o Homem de Chapéu olhou para o mar, e ficou pensativo, enquanto Vitor aguardava que ele começasse a falar.

Depois de um longo silêncio, que só era quebrado pelo vento e o mar, Vitor olhou sua mão, com areia, e perguntou:
-Você é deus?
-Não. Deus, sou eu.
Vitor o encarou. Seus olhos eram mais velhos e pesados que estrelas e galaxias inteiras, ele achou que se aquilo não fosse sonho nunca conseguiria encara-lo.
Ainda olhando o mar, o homem disse:
-Me diga, onde você pensa que está?
-Numa praia?
-E quem você acha que fez ela?
-Ahn… sei lá! O que você espera que eu responda?! Que foi deus? Pra deus, você faz muitas perguntas!
-Isso porque eu não sou Deus. Você está sonhando.
Vitor levantou na pedra, deu um passo pra traz, e pensou “isso é um sonho…”. Por algum motivo, esse pensamento fez com que ele pulasse da pedra e saisse correndo, com os pés afundando na areia. Ele correu, ao lado do mar, até encontrar um lugar onde seus pés não afundassem na areia, envolta de uma grande árvore. Ele tirou uma folha do bolso, encostou na árvore, que parecia ter sido feita só para servir de apoio para escrever, e começou a escrever com um lápis que ele não sabe de onde surgira.
Por um momento, tudo o que existiu foi aquele papel e o som de seus pensamentos.
Era uma poesia, e ela significava algo, que no momento ele não sabia o que era por não existir, mas a poesia estava sendo construida. Ele rabiscava palavras, mudava elas de lugar, pensava em significados, sonoridade, e ritmo.
Aos poucos, quando ia chegando aos últimos versos e aos últimos centímetros da folha, o som do mar voltou, bem baixinho ao fundo.
Ele havia terminado. Caminhou até a beira do mar com a folha na mão então pôs-se a ler.
Conforme lia, o som do mar ia aumentando, o vento ia ficando mas forte, mas parecia que eles estavam estáticos, enquanto ele ia avançando os versos do poema. Uma lágrima escorreu de seu rosto, era a coisa mais bela que já havia visto. Quando terminou, pareceu que o mundo tinha voltado, mas diferente do mundo antes da carta; o céu havia escurecido, o som do mar estava ensurdecedor, e o homem de chapéu estava ao seu lado. Ele esticou o braço com o papel e deixou de modo que Deus pudesse ler ele, de modo ameaçador, como um mandado de prisão ou coisa que o valha. Enquanto deus lia aquilo, as coisas começavam a se desfazer, as palavras do poema que até então retumbavam em sua mente foram perdendo o sentido, e se transformando em sussurros de palavras que ele não conseguia identificar. Aos poucos, ele acordou.

One Response

  1. vivi, vc morreu?

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