Houve um momento em que Vitor se perguntou se estava sonhando. Quando estava prestes a chegar em alguma conclusão sobre o assunto, uma voz o interrompeu:
-Quer que eu te deixe a sós para continuar a escrever?
-Isso é um sonho? – ele perguntou, tentando ganhar tempo para digerir a situação.
O Homem de Chapéu somente o olhou, como se soubesse que ele necessitava de um tempo para digerir todas as informações. Depois de um minuto, inclinou a cabeça para o lado, deu um sorriso e perguntou:
-O que não é?
-Não sei. – Ele não fazia a menor idéia do que o Homem de Chapéu estava se referindo, mas sabia que mesmo que soubesse do que se tratava, não saberia responder.
Olhou para o homem, e tentou captar alguma informação que fizesse as coisas parecerem lógicas o suficientes para poderem ser aceitas. Ele pensou, Seu nome é Rob. Ou seria Bob? Ele usa esse chapéu, desses que eu achei que só existiam em filmes, só que melhor, e… ele é… O pensamento parou por aí. Derrepente ele ficou com vontade de fingir que a situação o havia atingido e disse:
-Ei, senhor não-sei-das-quantas, não sei o que você quer aqui, ou como entrou, mas se não sair logo daq… – Foi quando ele deu um passo pra frente, escorregou na casca de banana e parou bem a tempo de ficar numa posição ridícula de pernas abertas que acabava totalmente com seu discurso.
O Estranho de Chapéu continuou olhando ele com um sorriso e o rosto inclinado, como se já esperasse por tudo aquilo. Vitor se ajeitou, e tentou segurar a vontade de rir de si próprio. O Homem de Chapéu era simpático, o tipo de rosto que não tem como não gostar, e Vitor sentia os olhos dele entrando no fundo de sua alma, e como que por hipinose, meio emburrado ainda pelo vexame da banana, ele andou até a cadeira onde estava escrevendo, que ficava bem perto de Rob, e voltou os olhos para o texto. Pegou o lápis na mão e então voltou a rabiscar palavras de onde parou…
“Na noite seguinte, o sonho se repitiu, e sempre parava na mesma parte. Eu mudo, olhando para aquele rosto lindo… Era a melhor parte do meu dia, dez segundos antes de eu acordar. Não lembro bem quando, uma vez por algum motivo eu resolvi tomar um dramin e dormir. Dramin, é provavelmente a melhor invenção do mundo, as vezes eu queria ter descoberto ele antes. Em teoria é só um remédio para enjôo, mas um dos efeitos colaterais é o sono. Mais tarde eu fui experimentar outros remédios para dormir, mas nenhum chegava perto do dramin, com dramin, eu sonhava. Foi na primeira vez que eu tomei dramin que eu pude ter a primeira conversa com a mulher que eu viria a amar…
Começou assim:
-Oi.
Então ela disse:
-Olá.
E agente passou a tarde toda conversando, não me lembro sobre o que era a conversa agora, mas, na época lembro que eu considerei a melhor conversa que eu já tive em toda minha vida.”
Ele parou, olhou para o Homem do Chapéu, que estáva atras dele, lendo o que ele havia escrito, e então o homem retribuiu o olhar.
-Sabe… eu odeio isso de esquecer as coisas. Quando eu durmo, posso lembrar de tudo, mas quando eu estou desperto, é como se tudo ficasse distante, como algo que aconteceu a muito tempo atrás.
O Homem saiu de traz dele, andou até a janela que ficava ao lado da mesa, e olhou pra baixo, como se algo nessas palavras lhe trouxessem más lembranças, então ficou pensativo olhando a rua.
Depois de um tempo, disse:
-Vitor, tem um motivo para eu estar aqui. Você quer ouvir?
-Agora não… eu tenho um compromisso agora.
Vitor andou até a cozinha, pegou a cartela de comprimidos encima da mesa, tirou um comprimido, pegou uma bebida na geladeira, uma de pêssego, e engoliu um comprimido com um grande gole. Cambaleou até a cama, fazendo um teatrinho, e se jogou de qualquer jeito. Depois de um minuto se mexendo para achar uma posição, disse as palavras “se isso é um sonho, não tem pra que ficar acordado” e então dormiu, e sonhou.