ELE pegou sua caneta, sem saber se aquilo era uma carta suicida ou só algo que mais tarde não faria o menor sentido e começou a rabiscar:
“Vou contar uma história, a minha. Talvez no fim, ela tenha algum significado, tanto faz. Pra falar a verdade não tenho certeza se essa historia é minha, ou se é verdade, mas no final dela isso já não vai mais fazer tanta diferença.
Essa é uma história sobre uma pessoa que toda vez que dormia a noite sonhava, e toda vez que acordava de manhã não tinha certeza se tinha ou não acordado. Talvez tenha alguma coisa a ver com o fato da pessoa desenhar e assistir muitos filmes, os sonhos todos eram reais demais, e eu lhes garanto, uma das piores coisas é a certeza de que você nunca vai saber a diferença entre as coisas que são e as que não são de verdade. E a tendência é piorar, pois, com essa certeza, você começa a se tornar cada vez mais, uma pessoa irreal, e começa a tratar tudo da mesma forma [como eu].
Sem mais resenhas, começando como uma história deve começar: Não tenho mais certeza, mas acho que meu nome é Vitor. Passei minha vida entre bares, a casa da minha mãe, e uma série de lugares que já não me dizem nada. No momento, estou num desses lugares que não me dizem nada, e acho que talvez eu esteja nele à mais tempo do que devia. Não me lembro, mas com uma olhada na parede posso ver com clareza que não foram dias muito felizes, e dias-confusos talvez seja a única palavra que chegue perto de descrever os desenhos nas paredes.
Lembro de ter vindo para cá quando a situação na minha casa chegou num extremo de quererem me internar em alguma clinica [mas não tenho certeza se isso realmente aconteceu...], mas aquilo era só o começo.
Naquela época ainda tinha o trabalho, eu ainda comia, lavava a louça, saia com amigos, tomava banho, e só então ia dormir. Dormir, e sonhar.
Você ja sonhou? Um sonho de verdade? Um sonho totalmente diferente do seu mundo, mas que no sonho, fazia todo o sentido, tanto quanto seu mundo provavelmente faz? Um sonho no qual você trabalhava, ou estudava, e se você se esforçasse poderia lembrar da sua infância, poderia lembrar de ter feito planos para a semana que vem, ou qualquer coisa do tipo; então depois de vários dias nesse sonho você acorda, e só se passaram algumas horas, e você é condenado a passar o resto do dia se recordando no que aconteceu nesse outro mundo.
Será que se tivessemos que ficar recordando o que aconteceu enquanto estavamos acordados durante o sonho, sonhar ia se parecer menos com a realidade?
Não importa, sou só eu, perdido em devaneios, desenhos, e bebidas.
Eu era só um garoto no sonho. No sonho, eu conseguia conversar com as pessoas, eu tinha um amigo, Felipe [inventei esse nome agora porque não consigo me lembrar o nome real]. Acho que no dia agente estava jogando bilhar, mas lembro que era dia, e a luz entrava forte no nosso bar. Era minha vez, mas não fazia diferença, aquilo era só pretexto para ficarmos jogando conversa fora, ele me falava sobre como a cor amarela pode ter varios significados, e algo sobre poder fazer todas as coras à partir de amarelo, verde e roxo [fazia mais sentido na hora...]. Eu ia fazer minha jogada e ia ser uma jogada genial, juro, mesmo que agora eu não consiga recordar qual, e foi quando um reflexo vindo de fora me cegou. Quando abri os olhos vi ela, mulher que destruiu toda[s] minhas vidas. Ok, isso é uma mentira, mas ela foi grande responsavel pelo processo. [Voltando a historia:] Acho que ela estava passando na rua de carro, ou sei lá, lembrar daquela época é como tentar lembrar de algum passeio que eu fiz com a escola quando criança, mas acho que me lembro de ter corrido atraz do carro e feito ela parar. Do carro, desceu a mulher, ou talvez a menina, não sei dizer ao certo a idade que ela tinha, mas ela ficou lá um tempo me olhando, e eu tentei dizer alguma coisa, mas não saiu nada. No momento seguinte eu estava na minha cama.
Lembro do que aconteceu na manhã seguinte…
-Mãe.
-Bom dia filho
-Assim… se por algum motivo você precisasse dormir, que remédio tomaria?
-Depende… por que?
-Ah, nada.”
Seus dedos ardiam. Foi tudo escrito as pressas, com uma caligrafia terível, ele ja não sabia como continuar. Foi até a cozinha, que não ficava muito longe, e olhou ao redor. Viu o mofo nas paredes a luz piscando, prestes a queimar, e ao mesmo tempo que viu, ignorou tudo isso, pegou uma banana e voltou comendo, devagar.
Ao chegar na sala, sua banana caiu.
Claro, isso aconteceu por um motivo… um motivo, usando um chapéu.
-E então, como continua?
-Quem é você? -ele perguntou, mas sem tanto espanto quanto deveria.
-Achei que você precisasse de ajuda, pode me chamar de Rob.
-Ahn… posso só perguntar como você entrou, ou vai parecer uma pergunta estupida e sem sentido?
-Uma pergunta mais coerente seria: você vai ou não pegar essa banana do chão?
Agora, quero que vocês entendam: as coisas só aconteceriam dessa forma se o Vitor fosse o tipo de pessoa que não pensa, ou do tipo que pensa de verdade… mas se você parar pra pensar, não tem tanta diferença, e nossa historia pode continuar. E continua. [Toda e qualquer explicação sobre como as coisas deveriam fazer sentido, mas não fazem, qual a cor do chapéu de Rob, entre outros mistérios, ou talvez uma pequena continuação da carta, ficará para o proximo capitulo.]
achei tudo isso muito lindo, man.