Trechos I

Passou pelo portão com um velho ouvindo um toca-fitas. Sempre igual, o mesmo velho, o mesmo toca-fitas. Ficou imaginando o que será que ele estava ouvindo naqueles fones, que segredos o tinham feito ficar daquele jeito, ouvindo uma gravação em um quintal por tanto tempo.
Passou pela barraquinha de frutas, sentiu o cheiro que vinha com o ar, ouviu, em seus fones a frase “cifras moduladas em tons bemóis” e então se entregou à um solo de saxofone.
É dificil quando você, por fim, percebe que é estúpido. Sempre foi, mas era estúpido demais para perceber.
Um garoto numa escola procura o livro que perdeu. Ele poderia estar procurando um molho de chaves que nem ao menos tinha perdido, ou então estar se esgueirando por corredores, seja pra implantar uma bomba num lugar misterioso, ou para ouvir conversas que provem corrupção na escola. Ou talvez o garoto nem estivesse na escola, se pela manhã a revista da programação tivesse caido aberta na pagina, mostrando que naquele instante estava passando seu filme preferido em algum canal, ele pensou, enquanto andava. Ele se sentiu então, uma minima possibilidade, num mundo de probabilidades infinitas. No fim, teve a sensação de que não importava a possibilidade real e as que deixavam de ser escolhidas, as que faziam ou não faziam parte da verdade das pessoas; no fim… o pensamento foi interrompido. A sensação de estúpidez voltou, e ele subiu escadas com a mente em silêncio. Escadas davam em portas. Experimentou abrir uma outra porta dessa vez, mas só deu de cara com a escuridão. Experimentou também uns passos inseguros e amedrontados, em direção ao desconhecido. Percebeu que ja não sabia, no meio do escuro, onde começava e terminava seu corpo, nem onde escuro era chão e onde escuro era imaginação.

/fim.

PS:… afinal, nenhuma possibilidade no escuro podia ser pior do que ele.

One Response

  1. eu gosto, que fique claro.
    um beijo, de não me esquece.

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